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Apresentação

Acredito que as imagens, simplesmente dispostas uma depois da outra, desenvolvem por elas mesmas um tipo de narratividade e a pré-distinção de um tema fundador claramente definido não é essencial para que uma história se produza.

 

Talvez o evento extraordinário esteja tão fora da vida como a fantasia esteja fora da realidade e tudo o que não esteja na foto seja imaginação. Sabemos que a fotografia é imagem de alguma coisa, assim como a impressão digital marca a identidade de um criminoso e o restante vem das relações que fazemos, que estabelecemos revelando nossas próprias crenças. Quanto maior a simplicidade de uma imagem, mais estranhas lhe são as linhas que traçamos para encontrar o que não vemos, o que idealizamos e projetamos.

 

E o que pode ser mais simples que o documentário do banal? Simples e frágil, pois a fotografia não prova nenhuma verdade além de si mesma. Nesse sentido seria impossível a noção de um falso documentário fotográfico. Porém, se podemos determinar quaisquer relações, a ficção está lado a lado com a História nas observações que nos faz a memória. Essa é a ideia que motiva vários desses trabalhos.

 

Em alguns deles eu procurei fazer sequências de quadros onde tentei estabelecer reações deliberadamente impostas ou pelo acréscimo póstumo de inscrições linguísticas ou simplesmente pelo "movimento de cena" dos objetos e criar fábulas de "não acontecimentos", de retratos do silencioso tédio do cotidiano.

 

A escolha da narrativa do insignificante, do que é praticamente sem interesse tem para mim um motivo  pessoal, como uma ânsia/alegria de denegar o acontecimento e sua transformação; uma crença de que a maneira de apreender o tempo é por meio do estático - daquilo que permanece e pode ser comparado, e de que a fotografia (seja visual, seja como "fotografia dos sons") seria capaz de o deter e, simultaneamente, evidenciá-lo com sua estranha natureza de presença fantasma, fazendo de qualquer coisa um fato conhecido ou um ilusionismo concreto.

 

R. G.

© 2013 by Rúbia Gonzaga.

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